pedra n’água

sobre o zinco do teto flutuante, repousam braços e pernas estirados, enluarados sob a luz a pratear, bailando conforme a condução molhada, mareada, do rio-mar das tuas águas. solitário arco. rasgando o negro manto, cruzamos, em par, a densa noite sobre as profundezas do teu niger espelho, do teu chamado um solfejo, deslizando, abrindo-lhes sulcos sobre a superfície ao avançar. assim, sem querer, te tatuei craqueladas lembranças, que se comporão aos pedaços, em cacos de mosaicos, na fragata do tempo – barqueiro incansável – sobre a superfície líquida da tua pele a cadência das tuas ondas, o redemoinho dos teus olhos e o swing da tua maré, os marulhos do teu hálito-riso extenso de mar. esgueiro-me pela beira ao ver-te rolar, sei que és muitos em um só e que tua passagem se faz singular, por isso deixo-me louvar-te, lavar-me, livrar-me, levar-me pela correnteza da tua força a seduzir-me. complexo, Narciso que és deglutiste teu reflexo. convexo. aporto-me em ti. atraco-me a ti. não te quero margem, mas meio e fim. arrasta-me, afaga-me. afoga-me em ti a me entranhar. ancoro-me a ti. mergulho-te. engulo-te. engolhes a mim. pedra n’água pesada a afundar. a submergir. a tocar-te o fundo. a habitar-te. a gerar-me para, só então, de ti renascer.

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Um comentário sobre “pedra n’água

  1. Uma prosa pagã de ares clássicos, tão singela e anacrônica, e de alguém tão querida, é alegria dum professor de literatura

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