Frustração

Outro dia sonhei que voava. Era um misto de voo pleno com pulos muito altos que me impulsionavam a grandes distâncias e que, por alguma razão, ao cair não sofria influência direta da gravidade. Era como se eu plainasse no ar, como uma folha pequenina que despenca da copa de uma árvore e traça uma trajetória imprevisível rumo ao solo. Quase como uma pluma ao léu, totalmente à mercê do vento e do tempo. Justo eu, que tenho medo de altura, tive o privilégio de ver do alto grandes vales adornados de cristalinos fios de água e telhadinhos com suas telhas de barro e não tive medo. A curiosidade foi maior.

Lembro de fazer uma força descomunal quando retornava ao solo para correr outra vez e tomar impulso para um novo longo pulo. Meus pés pareciam pesar uma tonelada cada, e era com grande esforço que conseguia movê-los, mas ao tomar impulso esse fardo desfazia-se em macios pedaços do mais puro algodão e meus voos tornavam-se leves e serenos. Quase me senti um pássaro. Quase tive a liberdade de um. Lá em cima as coisas são diferentes, tem mais espaço. Dava até para pensar melhor.

De lá eu podia ver de tudo, não flutuava exatamente, mas conseguia me manter certo tempo no ar até retornar ao chão.  Pulava penhascos inteiros sem o menor risco de morte e depois tornava a pular. Entretanto, depois de certo tempo eu parecia cansar, meus pés ficavam cada vez mais densos e meus passos cada vez mais carregados, o que dificultava muito o pulo, e assim saltava cada vez mais com menos intensidade e já não conseguia mais me manter tanto tempo no ar e isso me desesperava. Eu havia desenvolvido o desejo latente e incontrolável, antes desconhecido, de me manter no ar e não mais descer. Eu não sabia mais viver aqui em baixo.

E foi com a dor aguda do não pertencimento, ou do pertencimento a lugar nenhum, que eu acordei pela manhã com o peito pesado e arfante de tanto correr em direção aos céus sem mais poder voar.

Pacotes de Memória

A morada que se localiza bem na curva do vento é a minha, é lá onde os cheiros mais diversos e carregados de memórias me lambem os cabelos, a pele e todos os buracos da minha cabeça, refrescando-me os pensamentos de sopro e ar, que pairam e planam e aterrissam espalhados, espalhando-me por aí.  São resquícios provenientes de todos os matos e flores e águas e terras batidas e enlameadas que se encontram e misturam os aromas todos em pequenas porções (e poções) de reminiscências que entram e saem do meu peito como massas de ar que me oxigenam por dentro, limpando de ruim as baforadas fétidas daquilo que um dia já foi, esvaziando-me o corpo e preenchendo outros espaços muitos… Permitindo assim, o empacotamento da memória, como forma de detê-la ou retê-la.

A memória em pacotes poderia ser definida como unidades pequenas e leves, avolumadas de matéria gasosa, porém densa de vivências derramadas e evaporadas traduzidas pelo cheiro. Material de difícil localização, mas de fácil comercialização, a memória em pacotes pode ser distribuída por preços que variam de zero a infinito, o valor varia de acordo com os interesses, ou (des)apego, do fornecedor, podendo ser, às vezes, incalculável, inestimável. E para a venda, nada mais apropriado do aquele que hoje habita somente os vieses tortuosos das memórias mais longínquas, perdidas entre nuvens doces de algodão, o vendedor que carregava nas costas sopros de lembranças em troca de garrafas. Lembranças essas que ainda hoje exalam.

 

GELATTO

 Embalada pelo sacolejo que desorganizava todos os meus órgãos internos, lutava para fugir do sol que invadia e que me bronzeava a revelia pela janela quando, desorientada, levantei e deslizei para me juntar ao mar de cabeças que inundava de suor o estreito corredor do ônibus. Era meio-dia. Os perfumes misturados ao azedo das camisas molhadas que desfilavam e constantemente pincelavam a todos gratuitamente, entre sentados e em pés, da fragrância que pairava no ar, anunciando a chegada e mais uma longa estadia do verão.

Entre apertos e empurrões que beiravam ao assédio sexual, ou quem sabe ao estupro, me encaminhei para a parte traseira do coletivo, onde a incidência de pessoas ainda era menor, afinal, meu ponto de chegada ainda estava a perder de vista e até lá quem sabe eu poderia me utilizar da porta, ao invés das janelas, para descer. E mais aliviada, porém ainda desconfortável, permaneci de pé, mas desta vez encostada na vidraça que separava os pagantes dos não pagantes, quando avistei uma moça que acabara de subir e que trazia consigo um pequeno, mas valioso e suculento pote de sorvete.

Talvez eu nem a tenha realmente visto, mas o sorvete sim, esse eu vi. Em contraste com o branco do copo de plástico, ele era rosa, cremoso e ainda com resquícios vermelhos de uma calda que poderia ter sido de morango ou quem sabe cereja, e diante do intenso calor que fazia esfumaçava, deixando um rastro adocicado pelo ar, cujo sabor eu poderia descrever com riqueza de detalhes, descriminando aromas, notas e texturas.

Eu já até podia senti-lo a derreter em minha boca em uma saborosa e aromática lambidela que me adormeceria os lábios, provocando em seguida uma leve dor nos dentes frontais pelo contato direto com a massa de gelo e, por fim, me congelaria as amídalas, garganta e esôfago do mais puro e consistente xarope de frutose, combinado a glicose e a todo o tipo de gordura trans e saturada complementando o sabor daquela magnífica delícia gelada.

E sedenta a acompanhei minuciosamente com olhos, corpo e sentidos, efetuar todo o procedimento padrão para se poder fazer uso de qualquer transporte coletivo. A vi subir degrau por degrau e depois apoiar-se na mesma vidraça que eu, porém pelo lado oposto, para retirar da bolsa alguns trocados que pagassem o valor da tarifa, certamente o excedente utilizado para pagar o mesmo sorvete que trouxera em uma das mãos, e que pouco a pouco se desfazia devido ao calor desta mesma mão em equilíbrio térmico com o copo de plástico.

Então ela cruzara a roleta com a leveza de quem parecia patinar no gelo. Ela e seu pote de sorvete. E juntos deslizaram para junto de mim e pousaram justamente ao meu lado. Ali, na mesma vidraça que começava a embaçar devido ao choque de temperatura provocado pelo encontro da garota com o pote refrescante de sorvete comigo e os demais. Ela sabia que era o sujeito de toda aquela sentença, embora o núcleo estivesse em suas mãos.

Ela o trazia junto ao colo como um troféu – ou quem sabe um filho ou um amante – onde vez ou outra levava os lábios até ele chafurdando-o, ora com os dentes, ora com a língua, em degustações espetacularizadas que vislumbravam o erotismo. Ela parecia estar só ali, além de muito a vontade, pois parecia não perceber que todo aquele balançar a lançava constantemente pra cima de mim, tornando aquele desejo incontrolável.

Eu já até podia ver, em meio a toda aquela bagunça vaporosa, o pote de sorvete voando em câmera lenta, em trajetória parabólica, enquanto os olhos mais atentos acompanhariam todo o trajeto com os narizes, para finalmente cair justo nas minhas mãos sedentas, coroando-me então com o prazer absoluto da saciedade.  No entanto, enquanto eu me derretia em devaneios entre um bairro e outro, ela, insensível, terminou o sorvete, raspou o pote, puxou a cordinha, desceu e eu nem percebi.

LAMA

Absorta na profundidade púbere que são os teus olhos, adentro sorrateira os escaninhos do teu riso vasto, emoldurado de um vermelho sangue pelas flores que exalas da tua primavera interior e que derramas sobre mim sob a forma de espessa chuva, banhando-me a carne e a mente da nobre e requintada fragrância que é o cheiro teu.

Trago por ti o corpo surrado e marcado pelos açoites de um amor dominante que ferozmente me dedicas, tatuando-me por sobre a tez matizes de beijos e carícias que se renovam e proliferam a cada estação, floreando-me das marcas de um apego doce, quimérico e reminiscente, que apenas cresce e frutifica. Só agora enraizando em mim a mesma vida que há muito já parece brotar de ti sob a forma de frondosos cânticos.

Tens a firmeza do chão em que pisas traduzida nos teus olhos de terra. Grandes olhos borrados que te refletem em longas e lânguidas piscadelas marrons de um brilho incandescente, cuja tonalidade forte, encorpada e profunda em muito vislumbra o café. Bebida quente que vem do pó. Que vem da flor. Do fruto. Da terra.

Bem és então o solo fértil e jovem guardião da vida e da morte. Da sobrevivência. Divindade primal à qual todos os mistérios se voltam, da qual todos os encantos se originam na forma de generosos punhados de paixão, fé e adoração traduzidos em cores, aromas e texturas.

De pés no chão e descalçada de mim, mergulho-te misturando-me a ti em uma solução densa e homogeneizante de água e terra. Lamaceando de nós o que há de alheio.

GOTEJO

Sentir o calor levantar do asfalto e se deitar por sobre a pele, derramando sobre ela o cheiro de sol. Nela entornar a fragrância, se perfumar. Banhar-se de sal na bica do mar interior e estancar os buracos sanguinolentos da carne.

Se deixar atravessar pelos raios de fogo que me fritam a cabeça e me cozinham os pensamentos em postas poéticas que sirvo e, em um processo autótrofo e solitário, me nutrem o corpo de matéria abstrata e farta que ingiro em grandes quantidades como fonte de prazer. De imortalidade.

Grossas gotas escorrem em cachoeiras de carícias, revelando aspectos do meu (des)tempero, molhando-me o corpo e lavando-me as roupas que visto, que colam e que gotejam o sumo que me condimenta.  Que me afoga no oceano de mim. Na água na qual me vejo ir embora.

O FRUTO CARNOSO DO DESEJO

 Na mais completa e profunda carência das belezas que a vida, tão comumente, oferece em caudalosas cascatas luminosas de toda a graça que há, e que brotam reluzente a cada nova esquina, não raro me permito fascinar por tudo aquilo que se difere dos demais pela perfeita  e dadivosa organização e harmonia rítmica do seu conjunto, resultando em uma obra, cuja autoria só poderia pertencer àquele cuja destreza é bem sabida e a sabedoria há muito temida e comentada.

E mais uma vez atraída pelos encantos daquela que me arrebatara na mais completa formosura, me surpreendi tentada de vontade e transbordante de desejo em tocá-la, em cheirá-la. Em comê-la. Em devorá-la em toda a sua forma perfeita. De saboreá-la. Uma tangerina. Leve e pequenina. Pele lisa e quase sem reentrâncias. Cheiro forte de flor. Laranja de um tom saboroso e sensual, quase que indecente. O poder exercido sobre mim foi tão grande, que meu desejo fortuito se fez notar de imediato.

Vencida pelos encantos naturais por ela emanados, não resisti e a levei comigo para casa. Eu as carregava junto ao corpo possessivamente, como um verdadeiro troféu, um prêmio conquistado com ardor. Quem me viu sair naquela noite do supermercado nem poderia imaginar que comigo levava, além de um enorme sorriso estampado na face, quase um quilo das tangerinas mais garbosas que já vira até então.

E de repente todo o caminho de volta para casa pareceu banhado em luz. O ar perfumou-se inteiro, descortinando um odor cítrico que envolveu toda a atmosfera e me mergulhou de cabeça antecipadamente na explosão do sabor gotejante que derramava fluido das minhas expectativas, e que, sem perceber, pouco a pouco se afogavam no mar azedo e desconhecido da desesperança.

Já em casa, a decepção se fizera notável logo ao primeiro deguste. Ela leve e pequenina, pele lisa e sem reentrâncias, fina. Cheiro forte e cor flamejante. Voluptuosa. Gosto, nenhum. Foi com um verdadeiro pesar que a descartei sem ao menos tê-la ingerido pela metade. Um terço sequer! Não pude prosseguir. Não quis.  E em instantes toda aquela quimera zelosamente construída se desfez reduzida a escombros, soterrando sobre si toda a beleza nela contida e a paixão em mim despertada. O fruto antes jovem e suculento, agora nada mais era que um fóssil seco e morto.

OLHO D’ÁGUA

Foi como ver o mar pela primeira vez. Não que nunca o tenha visto até então, mas talvez nunca o tenha enxergado em todo seu encanto e magnitude. E logo de início me pus a contemplá-lo totalmente desprotegida. Desamparada.   Corpo nu e peito aberto. Então fui tomada por ondas de arrebatamento, cuja força exercida sobre mim fora de tamanha intensidade, que quase me afoguei na imensidão ferina que são os teus olhos.

 Dizem que as águas possuem a capacidade mística de atrair. Um poder misterioso de seduzir pela beleza e pela profundidade convidativa que contém em si, de envolver em seu manto cálido aqueles que se deixam cativar pelo maremoto de sensações que esta lhes provoca. Pois a mesma vida que começa, também termina na beira do mar. E complacente caminhei em direção a ele até morrer.  Até sumir, fascinada, mergulhada em ti.

De onde venho, a água exerce grande poder, indiscriminadamente, sobre a rotina e o imaginário de qualquer um e de qualquer coisa. É dela o poder das horas e do tempo. É nela que a vida se abastece de rio e segue seu rumo por entre leitos e docas onde aportam saudades e lembranças flutuantes. É para ela que canto em ode a maravilha de agarrá-la em sentidos sem, no entanto, possuí-la. É por ela que dedico em verso e prosa incondicional afeto, fidelidade, lealdade e devoção. E foi com ela que tomei gosto pelo que há de mais profundo, desvendando segredos submersos, turvos e enlameados sem, contudo, perder a doçura.

Todavia desconheço os mistérios que conténs. Ainda me são estranhos os ventos que te movem. Que te crispam. Que te amansam.  Que te enfurecem e que te tomam num paradoxo de densas emoções que explodem no fundo de ti, e que eclodem nos espelhos que são os teus olhos d’água, nos quais estarei permanentemente à deriva.  Para mim és o mar. És o mar revoltoso e bravio ao qual me ancorei em sonhos tempestuosos dos quais não consigo me desvincular, e nos quais me deixo vencer pela forças das águas pelo simples desejo de pertencer a ele, de ser parte dele. De ser ele. E em oferenda me dei a ti.

Fiz de ti minha morada e do sal meu alimento, contrariando minha natureza adocicada de rio. Vem de ti a maresia que me invade os pulmões, transformando tudo ao redor no mais leve sopro de brisa. É de ti que vem a vida que sorvo a grandes goles e que me inunda o interior de grandes porções tuas. É de ti que vem a cura para as lesões que há muito trago espalhadas em mim. São teus os marulhos que me ecoam aos pés do ouvido em meio à madrugada, me trazendo recados teus, e me despertando mareada, marejada de ti.

E quando acordo com os olhos cheios d’água, penso que nada mais são que gotas de mar desaguando de ti para mim.